Cabeça, ombro, joelho e pé

Os passos só vão para trás. Os que são para frente sempre voltam. Falta de vontade não é, falta de impulso não é. Parece que os pés estão ligados ao pensamento e sempre que os pensamentos não correspondem a realidade os passos não acontecem.

Você está em casa, reclamando porque 10% da sua vida está ruim, só porque você ainda é nova e não encontrou seu amor. Tem gente com 70 anos que ainda está buscando. Enquanto isso, uma família está na beira da estrada, no frio, com duas crianças e não pedem nada. Se viram. Torcem para alguém olhar para o lado e botar a mão na consciência.

No nosso mundo perfeito não existe tráfico, tiros, crianças sem comida e lar. Nesse mundo perfeito  não há espaço para comoção. Não há espaço para comoção pessoal, mas para a nacional há espaço. Levanta a bandeira LGBTTI, mas não tem coragem de falar isso para a família. Defende o feminismo, mas está num relacionamento abusivo e não percebe. Não há espaço para problemas pequenos. Só comoção com campanhas via rede social.

Enche o peito para dizer que tem muitas curtidas e seguidores, mas quando precisou ninguém estava ao seu lado. Estamos vivendo a era Black Mirror, realmente. Os passos são para trás. A cabeça regrediu. Os pés estão ligados à cabeça e não podem pensar separados. Os pensamentos são retrógrados, os passos também. Não olhamos para a dor mais próxima e sim para a a dor nacional. Pelo menos ainda sentimos dor. Pelo menos ainda tem a esperança de encontrar o amor. Mas tem pressa e medo de ser feliz. Ou infeliz. Ou medo de ser. Ou medo de não ser. Tem medo. O medo basta. O medo te atrasa e não deixa andar. O medo te impulsa a ir mais longe. O medo.

Sem sentido, perdidos, vamos andando e acordando. Sem saber como será o dia. Ou sabendo e não querendo ter aquele dia. Ignorando. Ignorado. Por tudo e todos. Esquecido. O celular acabou a bateria. Está sozinho, não tem amor. Sem curtidas. Olhou para frente. Viu a família na beira da estrada. Sentiu o vento no corpo. Imaginou o frio. Olhou para o outro lado. Viu uma loja. Entrou para comprar uma bateria a mais para o celular. Entrou no Tinder, Happn, Facebook, Instagram. Voltou a vida normal e esqueceu a dor de todos.

Lembrou da sua dor. Sempre sai com a bateria a mais agora. Para não sentir dor. Regrediu. Os pés estão juntos da cabeça. Pensa e anda igual. Para trás.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s